sábado, 23 de junho de 2018

COMO ENCONTRAR UM TRABALHO COM SENTIDO?

Taynã Malaspina

“Ocorreu-me certa vez o pensamento de que se alguém quisesse arruinar e destruir totalmente um homem, infligindo-lhe o castigo mais terrível, algo que fizesse tremer o mais cruel assassino e o levasse a se encolher por antecipação, bastaria obrigá-lo a dedicar-se a um trabalho absolutamente desprovido de utilidade e sentido.”
(Fiódor Dostoiévski)

Essa citação de Dostoiévski evidencia a importância de encontrarmos sentido no trabalho. Para o filósofo russo dedicar-se a um trabalho sem sentido é o castigo mais terrível. Aí fica a pergunta: como encontrar um trabalho com sentido?

Antes de iniciarmos essa conversa, gostaria de salientar um aspecto importante. Viktor Frankl, o fundador da logoterapia (terapia baseada na busca por sentido) dizia que sentido não é algo a ser dado, mas sim encontrado. A busca de sentido é algo essencialmente individual e subjetiva. Encontrar propósito no que fazemos envolve um processo infindável de reflexão, ação e experimentação.

Roman Krznaric, escritor e fundador da The School of Life, elencou cinco dimensões do sentido no trabalho em seu livro “Como encontrar o trabalho da sua vida”, são elas: ganhar dinheiro, alcançar status, fazer a diferença, seguir nossas paixões e usar nossos talentos. O dinheiro e status são os chamados motivadores “extrínsecos”, uma vez que tratam o trabalho como um meio para um fim, enquanto os demais são “intrínsecos”, com o trabalho valorizado como um fim em si mesmo. Trago aqui um resumo dessas cinco dimensões, para que cada um possa refletir sobre qual é a dimensão que lhe impulsiona.

1. Dinheiro e a boa vida
Para o autor, escolher uma carreira por causa dos benefícios financeiros é a motivação mais antiga e mais forte no mundo do trabalho. Grande parte das pessoas estão no trabalho atual devido ao salário e tem medo de buscar algo diferente por medo de uma redução salarial significativa. O dinheiro pode nos apoiar na busca do sentido quando nos dá liberdade para experimentar a vida e as oportunidades que surgem. Contudo, muitas vezes, pode travar a busca por um trabalho com sentido quando gera medo e nos mantém na zona de conforto. Afinal, como dizia Gandhi, “algemas de ouro são muito piores que algemas de ferro."
Roman cita os achados das ciências sociais modernas que evidenciam a falta de qualquer relação clara e positiva entre renda e felicidade. O dinheiro nos mantém presos na cadeia hedonista citada por Martin Seligman: à medida que enriquecemos e acumulamos mais posses materiais, nossas expectativas aumentam, por isso trabalhamos ainda mais para ganhar dinheiro a fim de comprar mais coisas, daí nossas expectativas aumentam novamente e o ciclo não tem fim. Para a psicoterapeuta Sue Gerhart, a busca por segurança em artigos materiais é consequência de falta de segurança emocional.
O autor provoca a seguinte pergunta: o que você mais gostaria de mudar sobre a sua atitude em relação ao dinheiro?

2. Status
O status social é outra busca extrínseca do ser humano. Roman cita duas variedades do status social. Uma delas é ter um trabalho de prestígio que seja admirado pelos outros como o de diplomata, advogado, médico, dentre outros.
A segunda variedade é o status baseado em nossa posição em relação aos outros. Nessa variedade estamos o tempo todo nos comparando com os outros. Se temos muitos amigos em cargos superiores aos nossos, nos sentimos fracassados.
O risco de procurarmos sentido por meio do status é buscarmos uma carreira que a sociedade considere prestigiada, mas na qual nós não estamos realizados. Além disso, podemos ficar presos à mesma cadeia hedonista, na qual uma posição almejada é substituída por outra, num outro ciclo sem fim.
Para Roman, não devemos ficar tão preocupados com o que as outras pessoas pensam de nós. E traz a seguinte questão: quem você acha que está julgando o seu status – talvez a família, velhos amigos, colegas? Você quer dar a eles esse poder?

3. Fazer a diferença
Cresce o número de pessoas que querem fazer uma contribuição positiva para as pessoas e colocar seus valores em prática. Esse desejo está ligado à busca de um senso de propósito, ao desejo de olhar para trás, na velhice, e sentirmos que deixamos a nossa marca.
Peter Singer, argumenta que a nossa maior esperança de alcançar realização pessoal é dedicando à nossa vida a uma “causa transcendente”, maior do que nós mesmos.
No geral, pensamos que fazer a diferença está ligado a trabalhos nobres e humanitários como ativistas sociais, médicos, bombeiros e etc. Todavia, Viktor Frankl dizia que a busca de sentido está muito mais ligada ao COMO fazemos algo do que ao O QUE fazemos. Assim, um médico que atua de forma mecânica e fria pode encontrar muito menos sentido em seu trabalho do que um frentista que atua de maneira empolgada e apaixonada no seu dia a dia. Um médico que recebe o paciente em sua sala sem olhar no olho, se interessar de forma genuína faz muito menos diferença na vida de uma pessoa, do que um frentista que te recebe com um bom dia, te conhece pelo nome e dá um sorriso enorme para seu filho no banco de trás do carro.

4. Cultivar Paixões e Talentos
Aqui a busca de sentido está ligada ao “faça o que gosta e aquilo em que você é realmente bom”. Pat Kane argumenta que devemos nos esforçar para desenvolver uma “ética da diversão” em nossas vidas, o que coloca “você mesmo, suas paixões e seus entusiasmos no centro do mundo”. Isso envolve não termos uma distinção nítida entre trabalho e diversão, entre mente e corpo.
Para Roman um dilema que surge quando temos a intenção de seguir nossos talentos é se devemos procurar ser especialistas, nos concentrando em uma única profissão ou generalistas, desenvolvendo nossos vários talentos e paixões em diferentes ramos do saber. A cultura ocidental, com a herança da Revolução Industrial, nos ensinou a especialização. Todavia, os consultores de carreira têm mostrado, com cada vez mais força, que dentro de cada um de nós existem múltiplos “eus” para serem explorados.
A pergunta que lhe faço no final desse artigo é:
Por que você trabalha?
Para ganhar dinheiro? Para ter status? Para fazer a diferença? Para expressar seus talentos?
Qual é o sentido do seu trabalho?


quinta-feira, 7 de junho de 2018

O DESAFIO DO NOVO


Estamos vivendo a era das mudanças rápidas, profundas e irreversíveis, impondo um desafio diário. A Justiça Federal na Segunda Região (Rio de Janeiro e Espírito Santo), assim como todas as instituições públicas e privadas, precisa fazer uma reflexão sobre o contexto em que está inserida, a fim de que possa compreender seus desafios e superá-los de forma rápida e eficaz.
Sobre esse tema proferiu o psicólogo organizacional, Luiz Carlos Cassano Júnior, na abertura da Inspeção Judicial Unificada 2018, palestra sobre o “desafio do novo”.
Na ocasião, alertava inicialmente o palestrante para o nosso contexto marcado pela hiperconectividade, onde cada ponto afeta o todo e o todo afeta cada parte.  Tal realidade encontra-se enraizada no fenômeno da globalização e permeada pelas crises econômicas que assolam o país.  De um lado, a revolução digital, a inteligência artificial, as informações imediatas, Startups etc. De outro, a limitação de recursos das instituições públicas.
Todo esse contexto gera impacto no Poder Judiciário, premido por uma limitação orçamentária expressiva imposta pelo Poder Executivo, o envelhecimento da sua força de trabalho, as aposentadorias sem reposição, demandas repetitivas, exacerbando suas mazelas, impondo mudanças.
Diante de tal dilema, é preciso refletir sobre os perigos do isolamento e da individualização, onde a tecnologia domina o indivíduo e valoriza a hiperconectividade.  Nesse ponto, conduzido pelo senso de coletividade, valendo-se do poder e da riqueza da diversidade existente nas equipes,  o indivíduo poderá estabelecer uma nova ordem de coisas, onde o coletivo se sobrepõe ao individualismo e ao isolamento, construindo um ambiente saudável, criativo, estimulante e motivador.
Afirmou, então, Luiz Carlos Cassano Júnior que, o poder do coletivo na Segunda Região poderá promover a aproximação entre Regiões/Órgãos, Unidades, níveis hierárquicos, com o fito de disseminar, compartilhar boas práticas e deverá apostar na integração, no envolvimento e na participação de cada um, buscando o envolvimento de todos níveis hierárquicos em rede.
A Inspeção Unificada, assim, é um movimento de mudança nessa direção, e também é um desafio que se coloca como um canal aberto para dúvidas de sobre como fazer.  Precisamos garantir isso.  Exercer isso nos aspectos humano e procedimental.  Isso porque, inspeção é avaliação: somos nós com um olhar crítico para nossa realidade.  Impõe uma autoavaliação e envolve conhecimento tácito, participação e confiança.  É preciso ver os erros de forma sistêmica. É preciso compreender e respeitar a visão do servidor.
A Inspeção Unificada também deve ser momento de refazer o planejamento, de pensar soluções e inovar.  Precisa ser marcada pelo respeito à diversidade e diálogo. Pela oportunidade de pensar o futuro, dar-lhe um significado e valor social.
Avaliando nosso momento, percebemos que o advento do novo sistema de acompanhamento processual, EProc e os Núcleos de Atividades Operacionais representam relevantes mudanças de paradigmas, e são reflexos da revolução digital e da limitação de recursos.  Contudo, estão promovendo turbulência e transição (desconforto/sofrimento), evidenciando a necessidade de validação, compreensão, escuta ativa e a aproximação entre os níveis hierárquicos que deverão trabalhar juntos da adequação das expectativas, prazos e metas.  É essencial pensar juntos.  Construir objetivos realistas. Agir com responsabilidade e inclusão social.
Nesse novo modelo, passa a ser exigido um novo perfil, a ser objeto do desenvolvimento (que é mais do que capacitação) da gestão, do servidor e do magistrado.
Em razão desses aspectos, tornou-se indispensável o debate em grupo, a reflexão permanente sobre duas posturas antagônicas: impotência x prepotência.  É preciso buscar o equilíbrio entre essas duas posições. Ter consciência do que está acontecendo dentro da Instituição, buscar o novo, respeitando os limites estruturais e humanos (aquilo que não podemos mudar).
Perceber as brechas, as oportunidades e tudo aquilo que está em nosso poder e que podemos influenciar/mudar, evitando o sentimento de impotência: “Não posso fazer nada...” e seu oposto, o sentimento de prepotência: “Posso fazer o que eu quiser...”
É preciso refletir sobre o fato de que, em nossa Instituição há diversos níveis hierárquicos, todos com limites e potenciais próprios.
Os processos de mudanças são, assim, oportunidades de aproximação.  Poderão potencializar nossa capacidade coletiva de enfrentar o novo com diálogo, com solidariedade e com coragem.
Diante da realidade que se coloca, o que podemos fazer para amenizar a turbulência da transição? Seria necessário rever algumas metas, prazos e exigências nesse período de transição e turbulência? E, indo além da turbulência, o que podemos fazer para otimizar o uso inteligente da nova tecnologia que teremos?  Estamos preparados para abrir mão de controles e formalidades, que o novo modelo permite, em prol da celeridade?
Devemos aproveitar as oportunidades do novo para compartilhar as dificuldades e as soluções desse momento de transição, primeiro com nossa própria equipe, depois com todas as demais unidades.  Apoiar-nos na coletividade, fomentando uma colaboração intensa e permanente para enfrentar os desafios que são colocados.  O conhecimento é um bem que não se desvaloriza quando multiplicado.  Quanto mais compartilhamos, mais ele é potencializado e valorizado.
A emoção do palestrante e a força de suas palavras são marcas inconfundíveis do seu comprometimento com a instituição e, em especial com as pessoas que diariamente fazem a diferença para que a Justiça Federal possa cumprir seu papel na sociedade.  

Preciso dizer:  Luiz Carlos Cassano Júnior, você me representa!